A HISTÓRIA DA NAÇÃO BRASILEIRA DE JOSÉ OITICICA (1910)

OLHAR SINÓPTICO E POLÍTICAS DO TEMPO EM UM PROJETO HISTORIOGRÁFICO MODERNO

  • Vicente da Silveira Detoni Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Palavras-chave: historiografia brasileira; José Oiticica; políticas do tempo

Resumo

O artigo tem como objetivo analisar alguns aspectos da proposição de escrita da história do Brasil de José Rodrigues Leite Oiticica (1882-1957) intitulada “Como se deve escrever a história do Brasil”. Ela foi publicada em 1910, na Revista Americana, como uma réplica ao conhecido texto homônimo de Karl Von Martius (1794-1868), premiado pelo IHGB na década de 1840. Tendo em vista a inserção desta proposição em uma conjuntura de crítica a tradição historiográfica romântica corrente no fim do século XIX, pretende-se focar nas inovações conceituais e narrativas sugeridas por José Oiticica, considerando a maneira que elas contribuem para a construção de um olhar sinóptico sobre a história da nação brasileira. Argumenta-se que a demanda por se reescrever a história do Brasil sob novas bases teóricas se apresenta como uma questão de política do tempo na medida em que esta “renovação” pode ser compreendida como um esforço de oferecer elementos, a partir de outro repertório político-intelectual, para se solucionar o problema do “atraso nacional”.

Biografia do Autor

Vicente da Silveira Detoni, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Doutorando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em História pela mesma instituição (2019). Graduado em História pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Erechim (2016). Realizou mobilidade acadêmica (convênio ANDIFES) por um ano na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2014. 

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Publicado
31-07-2020
Como Citar
da Silveira Detoni, V. (2020). A HISTÓRIA DA NAÇÃO BRASILEIRA DE JOSÉ OITICICA (1910): OLHAR SINÓPTICO E POLÍTICAS DO TEMPO EM UM PROJETO HISTORIOGRÁFICO MODERNO. Revista De Teoria Da História - Journal of Theory of History, 23(1), 227 - 256. https://doi.org/10.5216/rth.v23i1.62684