Chamada Dossiê (2020/2): História e Psicanálise - Revista de Teoria da História

09-04-2020

Chamada Dossiê (2020/2): História e Psicanálise - Revista de Teoria da História

 

Ventiladas desde a década de 1960 e consubstanciadas em fins do século XX, as interrogações sobre a prática historiográfica e sua associação à narrativa histórica exigiram novo escrutínio do historiador. Tais interrogações visavam ao aprofundamento, de um lado, e à contraposição, de outro, às teorias estruturalistas, que, por sua vez, desafiavam as concepções discursivas vigentes. O abalo provocado às ciências humanas prescreveu ao historiador compreender de que forma suas práticas e narrativas incorporariam distintas linguagens, considerando, delas e nelas, o escopo ético e estético. Nesse cenário, emerge a preocupação, antes latente, com o lócus do processo de subjetivação. Derivou de tais movimentos uma significativa abertura do campo historiográfico à relação entre história e psicanálise.

Interessado na relação supracitada, o historiador Dominick LaCapra alertara para a associação fundante entre evento-limite e Holocausto, que determinou a configuração dos trauma studies. Com o passar dos anos, houve um alargamento do conceito trauma, fazendo com que seu uso se estendesse a outros acontecimentos, tais como o terrorismo, a escravidão e o colonialismo. A história do trauma, a pós-memória e o pós-traumático impõem uma nova abordagem às definições de acontecimento e experiência, impactando, também, a percepção sobre o tempo e a temporalidade. Assim, parte da literatura histórica aborda as guerras do século passado como eventos exemplares – essa caracterização cabe, sobretudo, à Segunda Guerra, cuja memória eiva-se do mandato nunca mais. Nessa perspectiva hegemônica, embora não consensual, as experiências traumáticas, concebidas como inenarráveis, evidenciariam o ápice da impotência da linguagem. 

Essas perspectivas reportam tanto ao vaticínio de Theodor Adorno acerca da impossibilidade da poesia após Auschwitz quanto às considerações de Walter Benjamin sobre a perda da experiência em um mundo convulsivo. Antecipando-os no exame da subjetividade moderna, Sigmund Freud foi referência a ambos. Entretanto, há entre eles uma distinção essencial: enquanto Freud situa o trauma na origem da aquisição da linguagem e da subjetivação, Adorno e Benjamin o ancoram no contexto histórico. Essa distinção explicita uma divergência entre história e psicanálise, no que se refere à temporalidade e à subjetivação. Para a psicanálise, o tempo é o do inconsciente, organizado segundo uma lógica associativa, onde acontecimento, evento e memória se embaraçam, sem prejuízo ao processo de subjetivação. Para a história, a causalidade tem um lugar central na estruturação da narrativa e, mesmo que a temporalidade possa tratar de subverter a periodização, o processo de subjetivação não se descola do contexto mediado pela cronologia. 

Diante do exposto, como objetivo central, este Dossiê pretende abrigar artigos que problematizem de que maneira a historiografia se beneficia da abertura à psicanálise, promovendo, ainda, a interlocução entre esses campos e tratando-os interdisciplinarmente. Consequentemente, outros temas e indagações compõem o escopo desta chamada, a saber: como a escolha das fontes e a constituição dos arquivos (suas presenças, ausências e excessos) permitem explorar os processos de subjetivação? Poderiam os inconscientes individual e o coletivo serem objetos da história? E mais: como narrá-los historiograficamente? Como captar, duplamente, o explícito, os entre-ditos e os inter-ditos, na letra e/ou na imagem, considerando o transbordamento de sentidos inerente aos processos de significação? Estética e eticamente, como o censurado, nas figuras do obsceno, do desviante e do obscuro, se apresenta na cena, na imagem e na linguagem? É importante não perder de vista as formas de produção, manutenção e esgarçamento do laço social, tema caro à psicanálise e urgente à história. Por fim, esperamos que os textos sejam atravessados por reflexões sobre as possibilidades e os limites teórico-metodológicos, que ensejam a prática historiográfica – considerando, inclusive, os desejos que a conduzem – e a prática psicanalítica.

 

As contribuições devem ser submetidas pelo nosso portal (https://www.revistas.ufg.br/teoria/index) ou enviadas por e-mail (revistateoriadahistoria@gmail.com).

 

Diretrizes para submissão: https://www.revistas.ufg.br/teoria/about/submissions

Cronograma:

Submissão: 01/05/2020 a 31/08/2020

Avaliação: 01/09/2020 a 20/10/2020

Envio das cartas de aceite: 21/10/2020 a 31/10/2020

Data final para recebimento dos textos revisados: 16/11/2020

Data para publicação do Dossiê: Dezembro de 2020

 

Organizadoras:

Profª. Drª. Ana Lúcia Oliveira Vilela (PPGH-UFG)

Profª. Drª. Fabiana de Souza Fredrigo (PPGH-UFG)

Me. Sabrina Costa Braga (Doutoranda PPGH-UFG)

 

Call for Papers (2020/2): History and Psychoanalysis

 

Outlined since the 1960s and strengthened at the end of the 20th century, the questions about historiographical practice and its association with historical narrative demanded new inquiry by the historians. Such questions aimed at deepening, on the one hand, and opposing, on the other structuralist theories which in turn challenged current discursive conceptions. The shock caused in humanities obliged historians to understand how their practices and narratives would incorporate different languages, considering the ethical and aesthetic scope both from and in them. Within this scenario emerges the previously latent concern with the place of the subjectivation process. These movements culminated in a substantial widening of the historiographical field to its relationship with psychoanalysis.

Interested in that relationship, the historian Dominick LaCapra had warned of the founding association between limit-event and Holocaust, which established the field known as trauma studies. Over the years, there has been an expansion of the concept of trauma widen its use to other events, such as terrorism, slavery and colonialism. History of trauma, post-memory and the post-traumatic impose a new approach to the concepts of event and experience, also impacting the perception of time and temporality. Thus, part of the historical literature deals with the wars of the last century as exemplary events — this characterization is above all due to the Second War, whose memory taint itself from the commandment “never again”. In this hegemonic perspective, although not consensual, the traumatic experiences conceived as unspeakable would highlight the apogee of language impotence.

These perspectives relate both to Theodor Adorno’s prediction about the impossibility of poetry after Auschwitz and to Walter Benjamin’s considerations about the loss of experience in a convulsive world. Anticipating them in examining modern subjectivity, Sigmund Freud was a reference to both. However, there is an essential distinction between them: whereas Freud places trauma at the origin of language acquisition and subjectivity, Adorno and Benjamin anchor it in the historical context. This distinction explicit a divergence between history and psychoanalysis, regarding temporality and subjectivity. For psychoanalysis, time is that of the unconscious, organized according to an associative logic, in which event and memory are meddled, without impairment to the process of subjectification. For history, causality has a central place in structuring the narrative and even though temporality may try to subvert periodization the process of subjectification does not detach from the context mediated by chronology.

Considering the above, as a central objective, this Dossier intends to assemble papers that problematize how historiography benefits from being open to psychoanalysis, further promoting the interlocution between these fields and treating them interdisciplinarily. Consequently, other themes and questions make up the scope of this call, namely: how does the selection of sources and the constitution of archives (their presence, absence and excesses) allow exploring processes of subjectification? Could the individual and the collective unconscious be objects of history? And more: how to place them in a historiographical narrative? How to capture both the explicit and the disguised in words and/or images, taking into account the overflow of meanings inherent in the processes of signification? Aesthetically and ethically, how does the censured revealed in the figures of the obscene, the deviant and the obscure, present itself in scene, image and language? It is important not to lose sight of the forms of production, maintenance and tearing of the social bond, a theme dear to psychoanalysis and urgent to history. Finally, we expect contributions permeated by reflections on the theoretical and methodological possibilities and limits, which enable both historiographical — including its leading desires — and psychoanalytic practice.

 

Contributions must be submitted by our portal (https://www.revistas.ufg.br/teoria/index) or sent by e-mail (revistateoriadahistoria@gmail.com).

 

Submission Guidelines for Authors: https://www.revistas.ufg.br/teoria/about/submissions

 

Schedule:

Deadline for submissions: 31/08/2020

Publication: 12/2020