O Caboclinho como afeto

a presença indígena nas danças populares e tradicionais

Autores

  • Maria Acselrad Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Recife, Pernambuco, Brasil

Palavras-chave:

Caboclinho, Dança, Guerra, Afeto

Resumo

Se é possível reconhecer a influência da presença indígena nas danças populares e tradicionais brasileiras, há que se reconhecer que tal influência ainda não foi suficientemente estudada. Poucos trabalhos se dedicaram com profundidade ao tema. O que, possivelmente, decorre da ostensiva política de invisibilização a qual esses povos foram submetidos, gerando a dispersão de muitos de seus elementos e uma dificuldade em caracterizá-los como indígenas, tamanho o impacto que representou torná-los "brasileiros". Ao apontar esta sintomática lacuna, este artigo pretende destacar que essa presença indígena na dança, que envolve imagens, objetos, práticas rituais, dinâmicas relacionais é também reveladora de estratégias de luta pela memória e de uma resistência ao desaparecimento, através de uma história indígena incorporada, onde o confronto como dinâmica relacional é importante chave de entendimento. Afinal, num país com tão pouco apreço pela memória e identidade indígenas, surpreende a definição de Seu Nelson Ferreira, do Caboclinho Sete Flexas de Goiana/Pernambuco de que "o caboclinho é um afeto indígena".

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Publicado

20-01-2021

Como Citar

ACSELRAD, M. . O Caboclinho como afeto: a presença indígena nas danças populares e tradicionais. Hawò, [S. l.], v. 1, p. 1–40, 2021. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/hawo/article/view/65661. Acesso em: 16 out. 2021.

Edição

Seção

Dossiê Corpo em Dança: transformações, ritmos e lugares