O extrangeiro na língua materna: (não) desejar as coisas alheias

  • Viviane Veras

Resumo

A relação entre língua materna e língua estrangeira, embora pouco problematizada, é algo que inquieta e desperta curiosidade entre profi ssionais que mostram sua preocupação com o impacto da língua estrangeira sobre a língua materna; a mistura de línguas; o amor ou aversão das crianças e adolescentes pela língua estrangeira. O lingüista Jean-Claude Milner defi ne língua materna como algo de que a lingüística não dá conta, que excede gramáticas e teorias e pertence ao eixo da poesia, dos lapsos, dos jogos de palavras. Essa língua é materna para certo falante, e podemos dizer, com o autor, que ela materna o falante, fazendo dele um sujeito. Se, como afirma o psicanalista Jean Bergès, somos todos bilíngües, é porque falamos uma língua que tem nela (esquecida) uma outra, uma reserva, uma estrangeiridade, algo que nos é alheio, e que nos faz desejar. Quanto à língua estrangeira, tomada no sentido usual de segunda língua, é preciso levar em conta que sua aprendizagem exige mediações pedagógicas e técnicas, e pode se esgotar em um uso estritamente instrumental (tradução, comunicação, leitura). O ideal de homogeneidade que marca o cotidiano escolar não permite que se considere cada criança em sua singularidade, levando em conta seu desejo, e acaba por produzir sintomas (fracasso escolar, problemas no aprendizado, exclusão). Levantamos a hipótese de que a consideração desse (des)compasso entre as línguas pode permitir uma harmonia, mesmo dissonante, e uma provocação quanto à impossibilidade de obedecer a um mandamento que contraria o desejo.

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Biografia do Autor

Viviane Veras
Técnica em Assuntos Educacionais do Setor de Apoio à Ação Pedagógica do Cepae/UFG
Publicado
27-04-2009
Como Citar
Veras, V. (2009). O extrangeiro na língua materna: (não) desejar as coisas alheias. Revista Polyphonía, 19(1), 111-124. https://doi.org/10.5216/rp.v19i1.6074
Seção
Artigos