PRIMEIRA AUDIÇÃO

Anselmo Guerra de Almeida (Editor)

Para o encarte CD desta edição da Revista MÚSICA HODIE selecionamos oito obras de compositores brasileiros, cinco delas eletroacústicas – Anselmo Guerra, Jonatas Manzolli, Edson Zampronha, Paulo Guicheney e Marcelo Birck; e as demais para clarineta solo – Silvia de Luca; piano solo - Luiz Eduardo Castelões; e quarteto para clarineta, fagote e dois pianos - Valério Fiel da Costa. Apresentamos a seguir uma breve descrição de cada obra e alguns dados sobre os compositores.

1. Estudo para Hyper-Piano (eletroacústica; 2004 – 6’00”)

Anselmo Guerra de Almeida

O estudo explora sonoridades do piano, do acionamento tradicional das teclas à sua associação com os sons produzidos pelo próprio mecanismo interno e pela manipulação direta nas cordas explorando sons harmônicos. Os sons foram captados por microfones e manipulados usando-se técnicas de edição e processamento por meio do programa Csound. A obra explora também processos algorítmicos de espacialização tridimensional para audição binaural, recomendando-se o uso de fones de ouvido para melhor apreciação. Teve sua primeira audição na Primeira Bienal de Música Brasileira Contemporânea de Mato Grosso em novembro de 2004, em concerto do Grupo de Música Eletroacústica da EMAC-UFG.

Anselmo Guerra de Almeida é formado em piano pelo Conservatório Musical de Santos. Concluiu curso de Composição e Regência no Instituto de Artes da UNESP em 1986. Em 1992 concluiu mestrado em Ciência da Computação na Universidade de Brasília, na linha de pesquisa em música computacional. Foi pesquisador visitante na Universidade da Califórnia em San Diego/EUA no período letivo de 1995/6, como parte de seu projeto de doutorado. Concluiu sua tese na PUC-SP, com o título: “Ambientes Interativos de Composição Musical Assistidos por Computador”, em julho de 1997. Em setembro do mesmo ano tornou-se professor de Composição e Tecnologia Musical na Escola de Música e Artes Cênicas da UFG. Foi coodenador do Mestrado em Música entre 1999 e 2001. Em 2000 criou os Laboratórios de Pesquisa Sonora da EMAC (LPqS), que coordena até a data atual. É colaborador do NUCOM - Núcleo de Computação e Música da Sociedade Brasileira de Computação e atual vice-presidente da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica.

2. Treliças (eletroacústica; 2005 - 8’20”)

Jônatas Manzolli

Trata-se de uma obra voltada à construção de um discurso textural derivado da interação de três materiais: inflexões vocais, sons gerados através de processo de síntese granular e material concreto gravado em fontes diversas. O foco da articulação da estrutura musical é o ritmo engendrado pela superposição de blocos sonoros que se entrelaçam formando treliças sonoras e pela repetição de padrões com diferentes graus de similaridade. O compositor quer conduzir o ouvinte às diversas nuances sonoras encadeadas pelos encontros de formas articuladas, massas, densidade e aglomerados. Levá-lo por texturas como um expectador que re-constrói formas imaginárias ao observar uma treliça estrutural de espaços arquitetônicos.

Jônatas Manzolli é compositor e professor de Acústica e Composição do Departamento de Música do Instituto de Artes, Unicamp. Atua no domínio da Música Eletroacústica, mas na sua atividade de composição contemporânea tem-se dedicado também à escrita de obras instrumentais. O foco da sua atividade de pesquisa é a interface interdisciplinar entre Arte & Ciência, utiliza-se de modelos da Computação Musical aplicados à Composição Musical com ênfase em processos evolutivos e cognitivistas. Nestes últimos anos estuda o conceito de auto-organização como meio de entendimento da criatividade sonora e pesquisa, desde 1998, as possíveis aplicações da Neuroinformática em sistemas interativos de composição. Desenvolveu o projeto Roboser em conjunto com o Institute of Neuroinformatics (INI) da ETHZ, Zurique. Em 2002 criou o projeto sonoro da instalação “Ada: intelligente Space” para EXPO.02 em Neuchâtel, Suíça. Recentemente em 2005, desenvolveu, também em parceria com o INI, a paisagem sonora da instalação “Hellostranger” apresentada com grande sucesso em Zurique.

3. Sentimento Plástico (eletroacústica; 2004- 8’39”)

Edson Zampronha

Esta obra une impacto,coerência e drama. O impacto está principalmente na natureza dos sons utilizados, mantendo-se em parte suas naturezas originais e, em parte, seus aspectos referenciais. A coerência resulta da filtragem de todos os sons por um único acorde. Este acorde pertence a um conjunto especial de acordes que são percebidos como uma unidade quando ouvidos, mas que são subdivididos em sub-acordes quando a memória procura retê-los, o que possibilita criar uma escuta constantemente renovada. O drama é resultado da estruturação da obra como uma sentença que é dividida em duas partes em seu ponto de maior tensão. Entre suas partes toda uma nova frase é inserida. Esta frase terá suas tensões resolvidas somente com o surgimento da segunda parte da primeira sentença, o que propicia à escuta a sensação de resolução da obra e conexão entre a sentença segmentada e a frase inserida. Esta obra foi comopsta no Laboratório de Informática e Eletrônica Musical no Centro para a Difusão da Música Contemporânea (LIEM-CDMC), Madri, Espanha, em 2004.

Edson Zampronha recebeu dois prêmios da Associação Paulista da Críticos de Arte (APCA). É professor de composição Musical na Universidade Federal Paulista (UNESP), onde coordena o Grupo de Pesquisa em Música, Semiótica e Interatividade. É Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Trabalhou como compositor convidado e pesquisador convidado em diversas instituições como LIEM-CDMC (Madri), Fundação Phonos (Barcelona), Universidade de Birmingham (Inglaterra), Universidade de Helsinque (Finlândia), Universidade de Valladolid e Universidade Complutense de Madrid (ambas na Espanha). É autor do livro Notação Representação e Composição.

4. Música Eletroacústica nº 3 (eletroacústica; 2004 – 4’40”)

Paulo Guicheney

Música Eletroacústica nº 3 estreou em novembro de 2004 na Primeira Bienal de Música Brasileira Contemporânea de Mato Grosso. A obra foi construída a partir de fragmentos de composições instrumentais e vocais de vários autores, notadamente Mahler, bem como de trechos de composições eletroacústicas do próprio compositor. Ainda que procedentes de origens completamente diferentes, estes fragmentos se amalgamam criando uma textura onde alguns motivos são reconhecíveis e outros não.

Paulo Guicheney, nascido em 1975, é natural de Goiânia. Iniciou seus estudos de música com Annunziata Campos (piano) e Estércio Marquez Cunha (composição). Graduou-se em composição pela Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, onde atualmente cursa o mestrado em Composição e Novas Tecnologias sob a orientação do prof. Dr. Anselmo Guerra de Almeida. Em seu catálogo encontram-se composições para as mais diversas formações camerísticas, além de obras orquestrais e música eletroacústica. Compôs também para cinema, teatro e dança.

5. 409072 (eletroacústica; 2005 - 4’27”)

Marcelo Birck

A peça “409072” parte de um improviso sobre um patch do programa MAX, no qual são gerados gestos musicais visando a sugestão de um piano com suas possibilidades expandidas. A partir do material original, são realizadas uma série de operações posteriores (edição e efeitos). Glissandos, ataques, sons em reverse, clusters, ampliação da extensão habitual do instrumento e blocos de notas executados em pulsações além da execução humana são utilizados para criar seqüências musicais cuja conexão é articulada por afinidade tímbrica e/ou gestual, criando um jogo de equilíbrio entre distância e proximidade.

Marcelo Birck é bacharel em Composição pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tendo em seu currículo um CD solo (2000), e outro como integrante da banda Aristóteles de Ananias Jr. (1996), na condição de guitarrista, cantor e principal compositor. Professor substituto dos cursos superiores de música da UFRGS (99-2000) e UDESC (2002-03). Duas participações na Bienal de Música Brasileira Contemporânea: “Estudo Para Trio de Sopros” (91), e “Tetraktys” (flauta-doce e base gravada, 2001) Atualmente, é mestrando na Universidade Federal de Goiás, na linha de pesquisa Composição e Novas Tecnologias.

6. Dois Ensaios (clarineta solo; 1989 – 6’05”)

Silvia de Lucca

Dois Ensaios para clarineta solo foi escrita no final de 1989, atendendo ao pedido do diretor do Conservatório de Zurique - o compositor Hans Ulrich Lehmann - para que escrevesse uma “peça de confronto” para

o concurso de clarineta que teria lugar naquela instituição no ano seguinte. Tal peça deveria conter, dado a que se propunha, uma característica onde o instrumento fosse requisitado de forma a demonstrar a maior quantidade possível de seus recursos e possibilidades, sem limite de dificuldade técnica. Logo, durante o processo de composição, procurou-se cumprir com o objetivo de que a obra servisse como avaliadora do conhecimento, capacidade e gosto musical dos executantes. Dividida em dois movimentos independentes e de distintos andamentos e temperamentos, porém com durações similares, a obra foi composta de modo e tempo suficiente para que fosse explorada principalmente a agilidade e versatilidade da clarineta.

Clarineta: Luiz Afonso Montanha

Silvia de Lucca iniciou seus estudos musicais através do piano, concluindo sua Graduação em 1982, simultaneamente à formação em Psicologia. Participou dos madrigais Collegium Musicum de São Paulo e Canto Vivo de 1983 à 1986; sendo posteriormente auxiliar de regência dos corais Faap e Santo Américo.Atuou como violista em orquestras jovens, como na Orquestra Sinfônica Jovem do Litoral. Seus estudos de composição foram orientados por Schnoremberg, Kelly, Santoro, Ficarelli, Escobar no Brasil, e Lehmann e Balissat no exterior. Especializou-se em composição nos conservatórios de Zurique e Genebra entre 1989 e 1993. Em Zurique e em São Paulo foram realizados concertos totalmente dedicados às suas obras. Em seu catálogo de composições encontram-se mais de 20 obras para diferentes formações. Atualmente dedica-se à composição, docência e ao seu projeto educativo-cultural Arte dos Sons, destinado ao público leigo. Cujo tema inspirou a pesquisa de Pós-Graduação que finalizou em 2002 na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

7. Estudo ácido e euforia (piano solo; 2003 – 2’05”)

Luiz Eduardo Castelões

Esta peça é um tema com variações, com contraste exacerbado entre as variações, de tal forma que a penúltima variação e a última quase não se comunicam tematicamente, provocando silêncio, ruptura e o fim da obra. A escrita pianística se caracteriza aqui pela busca do mínimo necessário, e também pela ausência de polifonia, pela imitação do ritmo da fala e de sons do cotidiano. Trata-se de música absolutamente profana, para ser tocada com vigor, sem soberba e de forma a aceitar contribuições da ironia, do humor, da rudeza, da violência e da diversidade cultural – correntemente desvalorizadas em favor de atmosferas “mais nobres” (do heroísmo, do virtuosismo, da pureza, da suavidade, do nacionalismo...).

Intérprete: Estela Caldi (gravado no Rio de Janeiro, 2003)

Luiz Eduardo Castelões é mestre de composição musical pela UNIRIO, recentemente selecionado pelao programa CAPES/Fulbright para cursar doutorado na Boston University a partir do segundo semestre de 2005. Recebeu prêmios por trabalhos como compositor e editor de som para cinema. Entre suas recentes apresentações estão: recital de mestrado pela Rádio MEC-RJ (2004) e a exibicão de “Caleidoscópio Thelonious Monk” no Festival de Cinema Livre no CCBBdo RJ (2004); e a difusão acusmática da peca “No Limbo da Polimúsicas” no Festival de Música Contemporânea do Chile e no Festival Synthèse de Bourges, França (2005)

8. Quarteto Subliminar (Clarineta, fagote e 2 pianos; 2002 – 7’07”)

Valério Fiel da Costa

Trata-se de uma série de quartetos cujas partes (24 agrupadas em 6 quartetos) podem ser arranjadas livremente. As partes são autônomas, sem indicação de dinâmica ou articulação, gerando texturas timbrístico-gestuais de caráter estático.

Clarineta: Edmilson Ribeiro; fagote: Vicente de Paulo Justi; piano

1: Henrique Iwao; piano 2: Rafael Vanazzi.

Valério Fiel da Costa iniciou seus estudos em Belém com Áureo de Freitas. Bacharel em Composição e Mestre em Processo Criativos na UNICAMP, com dissertação sobre o piano preparado de John Cage, atualmente cursa doutorado nessa mesma instituição pesquisandoa música indeterminada brasileira. Foi um dos representantes brasileiros na Tribuna Internacional de Música Eletroacústica da UNESCO (2002) com a peça O deserto dos Cães e membro do grupo de performance eletroacústica e improvisação sobre objetos amplificados Artesanato Furioso (Belém-PA). É um dos idealizadores do Encontro Nacional de Compositores Universitários (ENCUN).

Encarte:
Track 1. Track 2. Estudo para Hyper-Piano (eletroacústica; 2004 - 6’00”) Anselmo Guerra de Almeida Treliças (eletroacústica; 2005 - 8’20”) Jônatas Manzolli
Track 3. Sentimento Plástico (eletroacústica; 2004 - 8’39”) Edson Zampronha
Track 4. Música Eletroacústica nº 3 (eletroacústica; 2004 - 4’40”) Paulo Guicheney
Track 5. 409072 (eletroacústica; 2005 - 4’27”) Marcelo Birck
Track 6. Dois Ensaios (clarineta solo; 1989 - 6’05”) Silvia de Lucca Clarineta: Luiz Afonso Montanha
Track 7. Estudo ácido e euforia (piano solo; 2003 - 2’05”) Luiz Eduardo Castelões Piano: Estela Caldi
Track 8. Quarteto Subliminar (Clarineta, fagote e 2 pianos; 2002 - 7’07”) Valério Fiel da Costa Clarineta: Edmilson Ribeiro; fagote: Vicente de Paulo Justi; piano 1: Henrique Iwao; piano 2: Rafael Vanazzi.


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