CARTA INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO PARA O LAZER COMO FERRAMENTA DE INTERVENÇÃO PEDAGÓGICA EFETIVA NO CAMPO DO SABER

RENATA LAUDARES SILVA *
MARIA LUIZA RAPHAEL **
FERNANDA SILVA DOS SANTOS **

RESUMO

O presente artigo objetiva desvelar os conteúdos presentes na Carta Internacional de Educação para o Lazer, justificando-a junto a literatura pertinente à temática, e, também, apontá-la como importante ferramenta no processo de intervenção pedagógica para profissionais que atuam diretamente nas escolas e nas Instituições de Ensino Superior. O referido documento visa capacitar agentes comunitários no que tange à disseminação de valores e atitudes críticas quanto à realidade social vigente.

PALAVRAS-CHAVE: educação para e pelo lazer – intervenção pedagógica e saberes

INTRODUÇÃO

A sociedade atual vem experimentando diversas sensações ocasionadas pela velocidade das mudanças. Mal se consegue assimilar uma transformação, já aparecem outras conduzindo aos processos de desestabilização. Esses processos repercutem nas diversas camadas sociais, como também, nos diversos setores da sociedade. Faz-se necessário estar preparado para assimilar tais alterações, saindo da uniformidade e da fixidez (LEVY,1996).

Diferentes e inovadoras exigências são atribuídas às diversas esferas do cotidiano, como educação, saúde, lazer e trabalho, que são mercados em expansão, estabelecendo, como requisitos históricos, modificações na lógica e na organização do sistema de produção e, conseqüentemente, nas relações sociais e educacionais.

Assim, as vivências lúdicas são reconhecidas como fortes elementos, que contribuem para a compreensão do novo mundo social, e reais possibilidades de intervenção sócio-educativa, devido ao fato de as práticas corporais estarem inseridas no contexto do lazer, espaço propício para mudanças de valores, de condutas e de atitudes.

Ao evidenciar as possibilidades de intervenção pedagógica via relação – lazer e educação –, autores como Dumazedier (1974 e 1980), França (1999) e Melo (2003) relatam em seus estudos o duplo processo educativo desta intervenção pedagógica: a educação pelo e para o lazer, ou seja, veículo e objeto de educação, requerendo, além das possibilidades de descanso e divertimento, desenvolvimento pessoal e social.

Refletir sobre a relação lazer e educação não é tarefa fácil, visto a enorme falta de consenso quanto aos conceitos dados pelos autores, e também, porque essa discussão requer adoção de postura, como relata Gomes (2004, p.126), “face da gama de possibilidades, aspectos, desafios e dificuldades que tal questão envolve”.

Neste sentido, o presente artigo procurou discutir junto à literatura especializada, os conteúdos presentes na Carta Internacional de Educação para o Lazer, para saber de que forma esses conteúdos podem atuar como instrumento de intervenção pedagógica e de que maneira se pode usá-los no cotidiano das relações sociais e educativas.

A CARTA INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO PARA O LAZER E SEUS CONTEÚDOS

O teor da referida carta foi elaborado e aprovado no Seminário Internacional de Educação para o Lazer da World Leisure and Recreation Association – Associação Mundial de Recreação e Lazer (WLRA), realizado em Jerusalém, Israel, em 1993, e ratificada pelo conselho da WLRA em Jaipur, Índia, no mesmo ano (WLRA, 2005).

Este documento tem como objetivo principal, disseminar junto aos governos, às organizações não-governamentais, às instituições de ensino, os conteúdos, os significados e os benefícios do lazer e da educação para e pelo lazer. Outro objetivo, é preparar os agentes de educação, incluindo as escolas, a comunidade e as instituições envolvidas na capacitação de recursos humanos, sobre os princípios nos quais poderão se desenvolver políticas e estratégias de educação para o lazer.

QUESTÕES PERTINENTES AO UNIVERSO DO LAZER

Vários aspectos são relevantes na vida do ser humano, inclusive as atividades vivenciadas durante o lazer, que, também, fazem parte da vida diária das pessoas. A tomada de consciência da importância do lazer no contexto de nossa sociedade essencialmente industrial e burocrática é, constantemente, caracterizada e analisada por diversos estudiosos da área.

Os conceitos de lazer, geralmente, são apreciados em estudos das diferentes áreas do conhecimento humano e suas relações, sofrendo interferências em diversos níveis, como época, cultura, e, até mesmo, valores individuais. Ao discorrer sobre elementos que compõem o universo do lazer, o presente documento revela que o lazer se refere a um campo específico da experiência humana, incluindo liberdade de escolha, criatividade, satisfação, diversão e aumento de prazer e felicidade. Também compreende formas amplas de expressão e de atividades, que perpassam pelos conteúdos culturais do lazer, a saber: conteúdos esportivos, manuais, artísticos, intelectuais e sociais (ITEM 2.1).

O lazer dessa forma é visto como algo integrante da vida social do indivíduo conforme evidencia Dumazedier (1974) em seus estudos. Ao ser idealizado como caminho que leva o ser humano ao desenvolvimento pessoal, social e econômico, como elemento imprescindível na aquisição de uma qualidade de vida melhor, este também passa a ser denominado produto cultural e industrial, gerador de empregos, bens e serviços, não podendo ser compreendido separadamente de outras metas da vida. Vários fatores possuem relação direta com o lazer, como políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais, podendo ampliá-lo ou dificultá-lo (ITENS 2.2 e 2.6).

O conceito de lazer, numa perspectiva de melhoria de qualidade de vida, está voltado para o desenvolvimento do sujeito como pessoa e membro de uma coletividade que, por meio das relações lúdicas, insiste na longa jornada rumo ao prazer. A melhoria na qualidade de vida resulta da qualidade de interação entre pessoas e o meio, vivendo uma sociedade em transformação (BRAMANTE, 1992).

Ao ressaltar a importância do lazer como produto cultural e industrial, gerador de empregos, Melo (2003, p.18-19) aponta o crescimento deste setor e relata que “uma em cada dezesseis pessoas, trabalha em atividades associadas a lazer e entretenimento, em um mercado que gera cerca de 212 milhões de empregos”.

Por meio das diversas atividades vivenciadas no âmbito do lazer pode-se favorecer o ser humano na aquisição e aprimoramento dos aspectos relacionados à saúde e ao bem-estar geral, ao possibilitar experiências que se adeqüem às suas próprias necessidades, interesses e preferências (ITEM 2.3).

Justifica-se esse item nos estudos de Wankel e Berger, citados por Schwartz (2000), em que os autores salientam o aprimoramento da auto-estima e do bem-estar geral, quando o tempo livre é ocupado com atividades prazerosas, escolhidas por opção própria.

Ao analisar este campo, tão importante quanto a educação, o trabalho e a saúde, onde nenhum ser humano poderá ser privado desse direito por discriminação de sexo, idade, raça, religião, credo, deficiência física ou situação econômica, como apontado no Item 2.4, da Carta Internacional, torna-se importante compreendê-lo como prática social, capaz de incluir a todos, e, também, um direito humano evidenciado na Constituição brasileira (BRASIL, 1988).

De acordo com o Item 2.5, da citada Carta, este é facilitado e garantido quando supridas as condições básicas de vida. Condições estas que fazem referência à segurança, à moradia, à alimentação, à renda, à eqüidade e à justiça social.

Segundo o Ministério da Educação e Cultura (2000), o governo, mediante a dificuldade em desenvolver políticas efetivas nestes campos, principalmente os problemas sociais, como os apontados nos parágrafos anteriores, firma suas convicções no campo do lazer e do desenvolvimento social e os apontam como uma das soluções para o déficit social, ao valorizar os serviços prestados pelas Ong’s e concebê-las como estimuladoras de ações na área social e geradoras de empregos. Estas organizações se autodefinem alternativas de trabalho para os indivíduos excluídos do mercado formal de trabalho. Denominadas terceiro setor, estas possuem objetivos claros e específicos, como a busca do equilíbrio social, diminuindo a desigualdade, a miséria e firmando valores relacionados à cidadania.

A preocupação centra-se nas questões relativas à formação de profissionais na área do lazer e desenvolvimento social, para fins de atuação junto às comunidades desprovidas de condições básicas, apontadas anteriormente. Por meio de elaboração e desenvolvimento de projetos, esses profissionais atuarão diretamente como mediadores de informações e conhecimentos acerca da melhor forma de aproveitamento do tempo livre, como também, na disseminação de posturas críticas quanto às condições sociais atuais vigentes.

Silva (2000) também elabora reflexões acerca da discussão anterior e nos mostra a importância da educação, como base para se adquirir autonomia e consciência crítica quanto ao que fazer no tempo livre ou que atividades vivenciar.

Dando prosseguimento à carta, outro problema enfatizado, refere-se à insatisfação crescente, ao estresse, ao tédio, à falta de atividade física, à falta de criatividade e à alienação como elementos comuns a todas as sociedades (ITEM 2.7). A problemática mundial, ocasionada pela velocidade das transformações, excesso de facilidades, no sentido dos automatismos e, também, a falta de conhecimentos acerca dos benefícios das atividades físicas, esportivas e de lazer, pode ser analisada nos estudos de Silva (2004) e de Santos e Santana (2005), pois os autores relatam as possibilidades de aquisição de uma vida mais saudável e prazerosa via atividades desenvolvidas no tempo livre. Eles também evidenciam a importância do profissional de educação física como agente transformador dessa realidade.

Ao se deparar com as profundas transformações sociais e econômicas, que produzem mudanças significativas no padrão e na quantidade de tempo livre disponível para o indivíduo durante o transcorrer da vida, faz-se necessário implantar políticas de lazer capazes de suprir a demanda pelo suprimento de bens e serviços de lazer (ITEM 2.8).

Essa problemática, oriunda das mudanças mundiais, se reflete efetivamente nos diversos segmentos da sociedade, causando inúmeros transtornos, tanto no aspecto pessoal como social. Esses contratempos fazem relação a diversas questões, principalmente, o aumento do tempo livre, devido à crescente alta do desemprego ou pelo excesso de horas livres relacionado aos processos de automação (SCHMITZ, 2005; OLIVEIRA, 2000; ANDREWS, 2001).

Neste sentido, de que adianta ter mais tempo disponível, se as pessoas ainda não concebem a importância da vivência plena do lazer? Torna-se premente repensar as ações voltadas para o preenchimento desse tempo livre, cobrar dos órgãos responsáveis atitudes mais efetivas acerca dos projetos sociais de inclusão e capacitação de profissionais, voltados para a disseminação dos valores pertinentes ao universo do lazer.

Após contextualizar as questões pertinentes ao universo do lazer, a carta direciona atenção para a educação. Segundo este documento, a educação se caracteriza como ferramenta de grande valor social, político e econômico, devido ao fato de estar intimamente ligada às discussões relativas a valores e atitudes dos indivíduos. A educação, também, é meio de dotá-los de conhecimentos e capacidades que os tornarão mais seguros quanto as suas ações e deveres, direcionando-os para uma vivência mais prazerosa e com qualidade. Neste sentido, compreende-se a importância da educação como veículo de desenvolvimento e fomentadora da inclusão humana em sociedade.

EDUCAÇÃO E LAZER: POSSÍVEIS RELAÇÕES?

De acordo com o conteúdo da carta, o desenvolvimento do lazer exige ação coordenada de várias partes (governos, organizações não governamentais, indústrias, instituições de ensino, mídia) e não somente do indivíduo. A educação para o lazer, neste sentido, possui uma função importante no que tange a diminuir as diferenças das condições de lazer e na garantia de igualdade de oportunidades e recursos (ITEM 4.1).

Segundo Marcellino (2000), a educação para o lazer pode ser compreendida também como uma ferramenta de defesa contra a homogeneização e internacionalização dos conteúdos veiculados pelos diversos meios de comunicação de massa, diminuindo seus efeitos, através da ampliação e desenvolvimento do espírito crítico. A ação conscientizadora da prática educativa, ao assimilar a idéia e fornecer meios para que os indivíduos vivenciem um lazer criativo e gratificante, torna possível o desenvolvimento de atividades até com um mínimo de recursos, ou contribui para que os recursos necessários sejam reivindicados, pelos grupos interessados, junto ao poder público.

A educação para o lazer deverá sofrer adaptações às necessidades locais, levando em consideração os diferentes sistemas sociais, culturais e econômicos, como também, ser um processo de aprendizado contínuo, que incorpora o desenvolvimento de atitudes, valores, conhecimentos e aptidões. Isso permite aos sujeitos novos horizontes, possibilitando a melhoria na qualidade de vida, com condições objetivas e progressivas, implementando a todos, as riquezas socialmente produzidas, historicamente acumuladas e que representam possibilidades de construção da cultura humanizada (ITENS 4.2 e 4.3).

As possibilidades de uma intervenção pedagógica efetiva, segundo Silva e Schwartz (2001), devem se pautar em princípios éticos, a saber: responsabilidade, no que se refere aos compromissos assumidos, respeito, ao valorizar a cultura e os costumes e formação permanente, quando se menciona a aquisição de conhecimentos sobre a realidade social.

Mas como educar para o lazer, conciliando a transmissão do que é desejável em termos de valores, funções, conteúdos, com suas características de livre escolha e expressão?

Autores como Melo (2003), Marcellino (2000) e França (1999) apontam em seus estudos o duplo processo educativo do lazer, no qual este é concebido como veículo e como objeto de educação. Segundo os autores, fazem-se necessários, para uma vivência plena do lazer, o aprendizado, o estímulo, a iniciação, para que se consiga a passagem de níveis menos complexos para níveis mais elaborados, com o enriquecimento do espírito crítico, na prática ou na observação.

Ao compreender o lazer como veículo de educação, é necessário considerar suas potencialidades para o desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos. As atividades de lazer, tendo cumprido seus objetivos consumatórios, como o relaxamento e o prazer propiciados pela prática ou pela contemplação, como também, seus objetivos instrumentais, no sentido de fornecer a compreensão da realidade, favorecem o desenvolvimento social, pelo reconhecimento das responsabilidades sociais, a partir do incentivo ao auto-aperfeiçoamento e ampliação dos sentimentos de solidariedade.

No entanto, quando a análise é dirigida ao lazer como objeto de educação, implica na consideração da necessidade de disseminar seu significado, esclarecer a importância, estimular a participação e transmitir informações que tornem possível seu desenvolvimento, ou contribuam para aperfeiçoá-lo.

Neste sentido, o Item 4.4 da carta em questão nos mostra o quanto os sistemas de ensino formal e informal ocupam uma posição central para a implementação da educação para o lazer, incentivando e facilitando o envolvimento do indivíduo neste processo. França (1999, p. 41) complementa a discussão, demonstrando em seus estudos que

um programa de ensino dedicado ao lazer deve ter como eixo de sustentação as especificidades do campo trabalhado, devendo garantir seus elementos determinantes [...] a ampliação do tempo pedagógico necessário a novas aprendizagens sociais e, por fim, adotar procedimentos didático-metodológicos que possam estimular e concretizar um fazer educativo criativo, lúdico, espontâneo, cultural, coletivo e eminentemente político-social.

Há tempos que a educação para o lazer, segundo o Item 4.5 do referido documento, é analisada no âmbito da educação, porém, não de forma complementar. Esta tem sido compreendida como parte importante no processo de socialização e conta com a capacitação de agentes para a disseminação de seus conteúdos.

Beauchamp e Costa (2000) nos mostram em seus estudos a importância da disseminação dos conteúdos do lazer via formação de agentes comunitários. Para os autores, a participação dos agentes junto a comunidade, como mediadores dos conteúdos relacionados ao lazer, é imprescindível na aquisição efetiva de mudanças de valores e condutas, devido ao fato de estarem próximos à realidade a ser transformada.

Questões como a apontada anteriormente, nos mostram a importância de se preparar para as transformações que vêm ocorrendo na sociedade. O século XXI se autocaracteriza pelas rápidas mudanças e, conseqüentemente, cobra das diversas instituições e de seus profissionais, posturas éticas e compromissadas com as demandas sociais. Essas mudanças fazem relação direta com a prática e os processos de intervenção nas diferentes camadas da sociedade.

De acordo com o Item 4.6, da referida carta, os profissionais da área do lazer necessitam desenvolver currículos e modelos de capacitação de recursos humanos equivalentes com as crescentes necessidades do mercado em franca expansão, como também, equipando de maneira prática e teórica, os profissionais para o desenvolvimento de novas abordagens na oferta de serviços de lazer.

Santos e Santana (2005) revelam em seus estudos a postura do profissional comprometido com essas transformações. Para os autores, este deverá conhecer as diversas realidades, de maneira direta ou indireta, se comprometer com o entendimento das novas linguagens culturais, procurando perceber a necessidade de equilíbrio entre consumo e participação direta nos momentos de lazer, para optar pelo caminho que conduzirá suas práticas. Por fim, o trabalho deste profissional deve levar em consideração o pleno desenvolvimento da humanização do indivíduo, de forma que este possa se ver como agente do processo social.

Ao apontar os conteúdos presentes na carta elaborada pela WLRA (2005), concernentes às possibilidades de transformação, via educação para o lazer, o papel crítico emergente do lazer e seus benefícios em todas as sociedades, como também, a importância da capacitação de agentes envolvidos com esses ideais, recomenda-se a expansão do desenvolvimento de programas de educação para o lazer.

Essa expansão faz referência aos diversos espaços, tanto formais quanto informais. Tradicionalmente, a educação para o lazer tem sido vista como meio de transmissão de conhecimentos e habilidades para o lazer, através da oportunidade de participação em programas de recreação, bem como em programas pós-escolares (MUNDY, 1976).

A educação para o lazer, ou a educação para o tempo livre, para sermos mais abrangentes, tem como objetivo maior, formar o indivíduo para que viva o seu tempo disponível da forma mais positiva, sendo um processo de desenvolvimento total através do qual um indivíduo amplia o conhecimento de si próprio, do lazer e das relações do lazer com a vida e com o tecido social. Por tal, deve ser considerada como processo integral da vida diária da escola.

EDUCAÇÃO PARA O LAZER E ESCOLA: DESVELANDO POSSIBILIDADES

A escola é evidenciada como um dos pilares básicos na sociedade para a formação moral, cívica e ética dos indivíduos e, também, da própria comunidade à qual se encontra inserida. Esta responsabilidade da escola é inegável e a torna uma instituição fundamental na estruturação dos valores e mudanças de atitudes frente a vida em sociedade.

Uma das metas estabelecidas pela WLRA em relação à educação para o lazer é ajudar os estudantes, em seus diversos níveis, a alcançar uma qualidade de vida desejável por meio da ampliação e promoção de valores, atitudes, conhecimentos e aptidões de lazer através do desenvolvimento pessoal, social, físico, emocional e intelectual. Por sua vez, este fato terá um impacto na família, na comunidade e na sociedade.

A educação para o lazer tende a envolver várias organizações educativas e as instituições de educação formal deverão se comprometer a exercer um papel ativo frente a essa questão. Faz-se necessário o compartilhamento das obrigações entre comunidades e escolas, no sentido de educar os jovens para a realidade.

Para tanto, o presente documento em análise, mune-se de alguns princípios e estratégias para disseminação desses conteúdos em ambientes formais e informais, como também, aponta caminhos para que se consiga atingi-los (ITEM 2.1).

A instituição escolar, segundo Teeters (1992), pode ser considerada um espaço rico e seguro para aquisição de conteúdos, onde os indivíduos podem se autotestar, explorar, aprender a correr riscos e jogar sem medo de fracassar, descobrir e ter prazer em aprender.

Em relação ao teor dos currículos escolares, o programa elaborado pela WLRA (2005), nos mostra que o lazer não é um conteúdo exclusivo de uma única disciplina. O lazer deve ter seu potencial detectado em cada matéria, currículo e atividade extracurricular, como também, estar incluso naquelas mais apropriadas (direta e indiretamente), visando enriquecer os seus programas e estimular o interesse no aprendizado por parte do aluno. A incorporação do lazer nas atividades educacionais e culturais, dentro e fora de escola, é outra forma de se trabalhar tal conteúdo (ITEM 2.2).

As diferentes disciplinas escolares como português, geografia, matemática entre outras, devem buscar a reflexão sobre a educação para o lazer. No entanto, a atual prática escolar nos remete a perceber que somente a Educação Física e a Educação Artística têm uma maior relação com o lazer, transmitindo práticas a serem vivenciadas com maior engajamento corporal. Bracht (2003, p. 164) defende a idéia de que:

a escola como um todo, deve assumir a educação para o lazer como tarefa nobre e importante, o que implica em colocar em questão as próprias finalidades sociais da instituição escolar. Isso implicaria em uma razoável mudança naquilo que poderíamos chamar de cultura escolar.

Como afirma Bracht, citado por Pimentel (2003), a Educação Física possui uma essência pedagógica, pois é um espaço onde se trata de um saber específico: o jogo, a dança, a luta, o esporte e a ginástica tematizados enquanto saberes escolares. Esses conteúdos estão sendo construídos ao longo da história da humanidade e são integrados à cultura dos locais onde são praticados, dentro ou fora do espaço escolar.

Contudo, quando se focaliza as estruturas informais, o programa elaborado pela WLRA (2005) nos revela que as intervenções pedagógicas, assim como suas estratégias, devem pautar na promoção de propostas de flexibilidade curricular que amplie a relação “escola-comunidade”, a fim de implementar o compartilhamento de experiências culturais de lazer dentro do processo de aprendizagem, permitindo ao aluno a liberdade de escolha em tais atividades. Sabe-se que os princípios de tentativa e erro incorporados ao lazer promovem um prazer sem frustrações (ITEM 2.3).

Entende-se por essa flexibilidade curricular, um investimento na área social, oferecendo condições para que crianças e adolescentes, famílias e comunidade em geral estabeleçam relações de confiança, num processo sócio-educativo que cultive a convivência saudável entre pessoas, por meio do lazer (BEAUCHAMP; COSTA, 2000).

As abordagens de ensino e aprendizagem da educação para o lazer nas escolas devem ocorrer individualmente e em grupos, seja dentro ou fora do ambiente escolar, facilitando a animação, criatividade, experimentação pessoal, auto-aprendizado, aulas teóricas e orientação, fazendo com que o educando seja mais estimulado do que instruído (ITEM 2.4).

Tal processo só tem sentido à medida que procura satisfazer as necessidades individuais e sociais e não criá-las. A escola, ao desconsiderar fatores que também desempenham um papel importante na formação do aluno, ignorando todos os processos educativos que atualmente se produzem à margem dela, torna-se uma escola enfraquecida, que se limita a ensinar para o momento e a não dar bases para um reajuste permanente de conhecimentos e capacidades exigido numa sociedade que evolui de maneira acelerada.

A implementação da educação para o lazer no âmbito escolar deverá contar com um grupo de profissionais – professores, orientadores, especialistas, entre outros – conhecedores dos conteúdos pertinentes ao universo do lazer e educação, onde estes atuarão como coordenadores de lazer dentro da escola, como também, dentro das classes de aula (ITEM 2.5). Requixa (1979, p. 21) assegura que

a educação é hoje entendida como o grande veículo para o desenvolvimento, e o lazer, um excelente e suave instrumento para impulsionar o indivíduo a desenvolver-se, a aperfeiçoar-se, a ampliar os seus interesses e a sua esfera de responsabilidades.

Para Requixa (1980), nada seria mais adequado que considerar a importância do aproveitamento das ocupações de lazer como instrumentos auxiliares da educação. O indivíduo, ao participar de atividades de lazer, desenvolve, quer individualmente, quer socialmente, condições indispensáveis para garantir o seu bem-estar e participação mais ativa no atendimento às necessidades e aspirações de ordem individual, familiar, cultural e comunitária.

Para gerar continuamente novas competências diante de uma realidade cada vez mais dinâmica, faz-se necessário investir na forma-ção e capacitação de agentes comunitários, compromissados com a disseminação de valores e conteúdos do lazer junto às comunidades, como também, cobrar dos profissionais do lazer, atualizações dos conhecimentos para atender às novas necessidades. A importância da formação científica, encontra-se aí explicitada, auxiliando-os na contínua aquisição desse conhecimento. A dinâmica social que envolve os interesses do lazer possui características psicológicas e socioculturais muito complexas, as quais o profissional do lazer deve compreender. Para tanto, é necessário que se pesquise e aplique tais conhecimentos de maneira ética para um melhor resultado final (PIMENTEL, 2000, 2003).

Torna-se premente elevar as discussões relacionadas à educação para o lazer em todos os cenários e foros apropriados, assim como apoiar a implementação de estratégias e programas de educação para o lazer. Ao unir esforços para introduzir estratégias de educação para o lazer, em concordância com os princípios que formam a base desta Carta, então, os benefícios do lazer ficarão acessíveis a todos.

 

International Letter on Leisure Education as an effective pedagogical intervention tool in the field of knowledge

ABSTRACT

The present article aims at revealing the contents which are present in the International Letter on Leisure Education, justifying it in face of the literature pertaining to this research theme, as well as pointing it as an important tool in the process of pedagogical intervention for professionals who work directly in schools and higher learning institutions. This article intends to enable community agents to disseminate critical values and attitudes concerning the current social reality.

KEYWORDS: education to and through leisure – pedagogical intervention and knowledge

 

Carta Internacional de Educación para el Ocio como herramienta de intervención pedagógica efectiva en el campo del saber

RESUMEN

El presente artículo objetiva desvelar los contenidos presentes en la Carta Internacional de Educación para el Ocio, justificándola junto a la literatura pertinente a la temática, y, también, señalándola como importante herramienta en el proceso de intervención pedagógica para profesionales que actúan directamente en las escuelas y en las Instituciones de Enseñanza Superior. El referido documento visa capacitar agentes comunitarios en lo que tañe a la diseminación de valores y actitudes críticas con relación a la realidad social vigente.

PALABRAS-CLAVE: educación para y por el ocio – intervención pedagógica y saberes

NOTAS

* Professora Ms. do CEFD/DG/UFES – Vitória/ES e pesquisadora do Laboratório de Estudos do Lazer da UNESP de Rio Claro.

** Acadêmicas do curso de Educação Física do CEFD/DG/UFES – Vitória/ES.

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Recebido: 10 de outubro de 2005
Aprovado: 10 de dezembro de 2005

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Vila Velha – Espírito Santo
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