NOVAS TECNOLOGIAS E NOVAS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO DO PROFESSOR NAS ACADEMIAS DE GINÁSTICA

ROBERTO PEREIRA FURTADO *

RESUMO

A partir de um estudo de caso realizado em uma grande academia de Goiânia, trago este recorte com o objetivo de compreender como as transformações tecnológicas nas academias de ginástica têm influenciado a organização do trabalho neste espaço. A pesquisa foi desenvolvida no primeiro semestre de 2004. Para coleta de dados foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com professores da academia pesquisada. A academia escolhida, cujo nome fictício será Academia X, foi a que representa o que há de mais avançado nesse ramo de atividade em Goiânia. Assim, poderão ser apontadas algumas tendências para as demais academias de acordo com os resultados obtidos. Isso só é possível porque a tendência das academias menos desenvolvidas é acompanhar as mais desenvolvidas.

PALAVRAS-CHAVE: academia – tecnologia – trabalho.

INTRODUÇÃO

As grandes transformações sofridas pelos instrumentos de produção nas últimas décadas atingiram também as academias de ginástica. O trabalho do professor de educação física nesse espaço sofreu importantes transformações, acompanhando esse processo.

O número de academias aumenta consideravelmente a cada ano. Nos últimos anos, a indústria da beleza tem crescido rapidamente com seus salões de beleza, clínicas estéticas, cirurgias plásticas, e outras modalidades. Montar uma academia de ginástica se tornou um negócio promissor. A expansão desse nicho de mercado pode ser percebida nas várias feiras de exposição e atualização tecnológica e científica que  acontecem freqüentemente durante cada ano. Coelho Filho (1998) afirma que o número de inscritos em convenções de fitness cresceu 2000% em oito anos.

Vejamos um exemplo: considerada a maior expressão da América Latina em feira de esportes, a “Wellness Sport Convention” realizada uma vez por ano, com participação de mais de 200 expositores, movimenta o equivalente a 10 milhões de reais, com público visitante superando a casa de 60 mil (ADDAD NETO, 2001, p. 42).

As possibilidades de lucratividade oferecidas a quem investe no nicho de mercado das atividades físicas que, segundo Coelho Filho (1998), deve crescer 100% nos próximos cinco anos, provocam uma grande concorrência. “Para concorrer é preciso investir milhões em academias. Aquele salão de bairro não tem mais vez. Pode-se comparar a nova safra de academias aos supermercados, e as antigas às mercearias” (COELHO FILHO, 1998, p. 9).

A academia que não investir nas inovações tecnológicas e que não aplicar alguns princípios básicos de administração, presentes na acumulação flexível, provavelmente não sobreviverá a essa concorrência. Isso porque “a grande academia de ginástica atual não é apenas um lugar, é uma ‘idéia’ de academia, é o mundo do fi tness” (COELHO FILHO, 1998, p. 73).

NOVAS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO NAS ACADEMIAS DE GINÁSTICA

Os princípios administrativos que, aos poucos, vêm assumindo a preferência dos administradores e caracterizando a organização dos mais variados tipos de empresas nas últimas décadas, desde indústrias automobilísticas até academias de ginásticas, são caracterizados pela ênfase na flexibilidade em oposição à rigidez do antigo modelo fordista-taylorista, tendo o toyotismo como principal referência. A tendência de todas as empresas é seguir esse caminho, como mostra Antunes:

Essa assimilação do toyotismo vem sendo realizada por quase todas as grandes empresas, a princípio no ramo automobilístico e, posteriormente, propagando-se também para o setor industrial em geral e para vários ramos do setor de serviços, tanto nos países centrais quanto nos de industrialização intermediária (ANTUNES, 2001, p. 59).

Um dos motivos que faz esse modelo ser o preferido é o fato de ele ser o mais adequado para os instrumentos de produção de nossa época, caracterizados pelo grande avanço tecnológico que trouxe consigo modernas ferramentas de trabalho computadorizadas, robôs, softwares, entre outras. Kuenzer (2002) afirma que houve uma crescente complexificação dos instrumentos de produção, informação e controle, nos quais a base eletromecânica é substituída pela base microeletrônica. Nas academias, essa realidade não é diferente. “Hoje em dia, a tecnologia está muito presente nos programas de atividade física e conseqüentemente, nos de ginástica de academia e musculação. Novos aparelhos para a prática de exercícios físicos vão surgindo constantemente” (ANTUNES, 2000, p. 92).

Apesar das grandes transformações sofridas pelos instrumentos de produção nas últimas décadas influenciar também a nova configuração do mundo do trabalho, não é somente essa mudança, isoladamente, que determina a presença de uma nova configuração e, sim, a contradição entre as novas tecnologias, equipamentos, etc. e a forma de organização do trabalho existente anteriormente, ou seja, a contradição entre os instrumentos de produção e as antigas relações de produção.

As constantes inovações nos instrumentos de produção, intensificadas pela necessidade de concorrência entre as empresas no sistema capitalista, acabam provocando um aumento muito grande na capacidade de produção de mercadorias de cada empresa e do sistema como um todo, estabelecendo uma crise. Em geral, essas crises surgem porque não existe consumo suficiente para a grande quantidade de mercadorias produzidas.

Por volta de 1929 houve uma crise histórica no sistema capitalista causada pela superprodução. A estratégia mais visível utilizada para o gerenciamento desta crise foi o controle macroeconômico, principalmente relacionado à criação de diversas formas de incentivo ao aumento do consumo, tendo como base o regime fordista-keynesiano. Harvey explica que:

Uma condição generalizada de superacumulação seria indicada por capacidade produtiva ociosa, um excesso de mercadorias e de estoques, um excedente de capital-dinheiro e grande desemprego. As condições que prevaleciam nos anos 30 e que surgiram periodicamente desde 1973 têm de ser consideradas manifestações típicas da tendência de superacumulação (HARVEY, 1996, p. 170).

Nos anos 60 e 70 do século passado houve uma segunda grande crise no sistema capitalista, novamente caracterizada como uma crise de superprodução, tendo como agravante a crise do petróleo de 1973. “De modo mais geral, o período de 1965 a 1973 tornou cada vez mais evidente a incapacidade do fordismo e do keynesianismo de conter as contradições inerentes ao capitalismo” (HARVEY, 1996, p. 135). Antunes, afirma que

foi exatamente nesse contexto que se iniciou uma mutação no interior do padrão de acumulação, visando alternativas que conferissem maior dinamismo ao processo produtivo, que então dava claros sinais de esgotamento. Gestou-se a transição do padrão taylorista e fordista anterior para as novas formas de acumulação fl exibilizada (ANTUNES, 2001, p. 36).

Duas das principais características da acumulação flexível são a substituição gradativa do fordismo/taylorismo pelo toyotismo e da economia keynesiana para a neoliberal. O sistema toyota de produção e os conceitos econômicos neoliberais já haviam sido formulados antes do surgimento da crise da década de 1970, porém, a partir da deflagração dessa crise tanto o neoliberalismo quanto o toyotismo foram sendo mais aplicados e, aos poucos, foram se afirmando como idéias hegemônicas para a política econômica de vários países e para a administração da maioria das grandes empresas, consolidando o surgimento da chamada acumulação flexível. Harvey, assim caracteriza a acumulação flexível:

A acumulação flexível é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional (HARVEY, 1996, p. 140).

A organização das academias sofreu e continua sofrendo grandes transformações, acompanhando as transformações gerais ocorridas no mundo do trabalho com a passagem da forma de organização com ênfase nos aspectos tayloristas/fordistas para aspectos característicos da acumulação flexível.

Esse é o contexto ao qual estão inseridas as academias de ginástica atualmente. As mais desenvolvidas possuem influências ainda mais fortes da acumulação flexível que as demais. A sua organização interna se afasta muito da rigidez fordista, estando mais próxima das características flexíveis do toyotismo. Assim sendo, a academia funciona em uma dinâmica caracterizada pela flexibilidade, pela diversifi cação de sua produção, pelo “foco no cliente” e, conseqüentemente, pela mudança do perfil do professor que nela trabalha.

As aulas de ginástica são, por exemplo, “aulas-show”, com equipamentos, iluminação, decoração e sonorização que favorecem ao “espetáculo” e desempenham um papel importante na sedução do cliente. Assim também é toda a complexa estrutura que possui a academia, ou seja, não é só a aula que deve ser um “show” e sim também toda a academia com decoração, sonorização, iluminação e equipamentos que desempenhem funções de encantar e atender aos desejos dos clientes de experimentar sensações diversas, dentre elas a sensação de “status”.

A grande academia, acompanhando uma característica do toyotismo, disponibiliza atualmente uma diversidade muito grande de aulas. Além disso, permite ao aluno ficar bastante à vontade dentro da academia, para escolher qual modalidade pretende praticar em cada dia. Nas aulas de ginástica não existem mais turmas preestabelecidas, em horários predeterminados. As turmas são montadas no momento da aula com os alunos que têm interesse em participar daquela atividade, como coloca o professor B:

Porque na academia X nós não trabalhamos com turmas fechadas. Quando a turma é fechada você monta a aula para aquela turma. Quando a turma é aberta, ou seja, você está começando a aula, eles vão e anunciam a aula. “Aula de step, nove e vinte, professor B”, então nesse momento pode entrar na sala quem quiser.

Apesar de os professores da academia indicar para o aluno as atividades mais adequadas ao objetivo e ao nível de condicionamento físico dele, identificados na avaliação física, o aluno pode decidir qual aula participar, ficando livre dentro da academia para fazer uma ou outra aula em cada dia.

Essa é uma tendência já encontrada também em outras academias. No âmbito da ginástica e da musculação o aluno paga um mesmo valor mensal que dá acesso a todas as atividades existentes, geralmente com exceção das atividades aquáticas. Quando o aluno paga um valor fixo que lhe dá direito de freqüentar a aula que bem entender, onde a mensalidade “faculta o direito de freqüentar seções de ginásticas, musculação, lutas, spinning e atividades na quadra poliesportiva”, fi ca clara a possibilidade de o aluno escolher a atividade que ele desejar e não a atividade que o professor considera a mais adequada ou necessária para ele desenvolver (ADDAD NETO, 2001, p. 20).

Isso acaba provocando uma volatilidade muito grande de números de alunos entre uma aula e outra e também mantém a turma sempre heterogênea, com alunos novos, intermediários e antigos ao mesmo tempo, dificultando o trabalho do professor e impossibilitando que os conhecimentos científicos que ele possui sejam aplicados da maneira correta.

Na academia X, os professores e coordenadores devem apresentar relatórios mensais para a administração superior. Através desses relatórios o controle do trabalho do professor é efetivado com precisão. Verifica-se, por exemplo, a quantidade de alunos nas aulas de ginástica de cada professor por dia e por horário, a quantidade de alunos para qual cada professor de musculação elabora programas de treinamento, índices de rotatividade de alunos por professor de musculação, perfil predominante dos alunos que cada professor atende, ou seja, a quantidade de alunos mais velhos ou mais novos e homens ou mulheres por professor, entre outros elementos de controle.

Esse controle rigoroso do trabalho do professor só é possível graças à alta tecnologia existente na academia X, como informa o professor D, em relação às aulas de musculação: “como tem esse sistema de acompanhamento da chave, a gente tem um sistema de resultado, então todo final de mês tem que apresentar um relatório do que foi feito naquele mês, quantos alunos você atendeu, quantas revisões foram feitas”. A respeito da ginástica, o professor B também informa sobre o controle feito pela academia X:

Você sabe que em uma empresa privada você é valorizado pelo resultado que você oferece para a academia pelo lucro que você dá para a academia. Se existem dois professores de uma mesma modalidade e um tem a sala cheia e o outro está com a sala vazia, algum problema está acontecendo.

A organização do trabalho pedagógico dos professores de ginástica e dos professores de musculação da academia X possui algumas particularidades que a diferencia de algumas outras academias. No caso da musculação, esse trabalho possui uma ferramenta de apoio muito importante que é a alta tecnologia do sistema de informação existente na academia que permite um maior controle do professor sobre as características e o histórico do aluno na academia, como nos mostra o professor D:

[...] ele te permite ter acesso a todas as atividades que o cara fez desde o primeiro dia que ele entrou na academia. Desde a primeira ficha que ele fez, quais foram as cargas que ele utilizou, cada minuto que ele fez de ergometria está registrado, tudo, velocidades que ele usou.

A sala de musculação com aparelhos informatizados permite que os alunos desenvolvam as atividades previstas para ele com maior autonomia em relação ao professor. O fato de cada aparelho fornecer, para cada aluno, o peso que ele deve realizar determinada atividade, o número de séries e de repetições, a amplitude de movimento, etc., permite que esse aluno circule mais livremente na sala sem tanta interferência do professor.

Com o avanço tecnológico da microeletrônica as máquinas adquiriram funções que antes dependiam da interferência humana. Agora, diferentemente da automação nos tempos que a tecnologia era de base eletromecânica, as máquinas são capazes de desempenhar tarefas mais complexas que são resultado de uma transferência do saber intelectual do homem para a máquina, definida por Antunes (2002), como conversão do trabalho “vivo” em trabalho “morto”. Esta nova forma de automação é chamada de automação flexível por Machado:

As possibilidades de aplicação da microeletrônica criaram novas oportunidades para o processo de automação com conseqüências bastante signifi cativas para a alteração do trabalho humano. A automação baseada na eletromecânica opera com movimentos rígidos, cujo comando vem embutido na máquina e não pode ser modificado [...]. Com a aplicação da microeletrônica, os equipamentos tornam-se flexíveis e como o comando encontra-se externo à máquina, ou seja, no “software”, ela pode ser programada para diversas finalidades o que oportuniza atender à crescente diversificação do mercado. [...] À automação fl exível correspondem processos de trabalho flexíveis e flexibilização das funções (MACHADO, 1994, p. 14).

A automação flexível é uma maneira de a academia garantir o controle de qualidade porque a máquina não falha e, além disso, exerce um importante papel na sedução dos alunos. Com isso, as máquinas passam a desempenhar parte do trabalho que antes era desempenhado pelo professor, o que acaba aumentando também a produtividade da academia e conseqüentemente seus lucros. Addad Neto descreve a função dos “chips” e dos “leds” no processo de produção do serviço vendido pela academia X.

E as tradicionais fichas de musculação vêm sendo substituídas por chaves que possuem um “chip” acoplado, interligadas a um computador central permite prescrever treinamentos e transmite todas as informações necessárias para a realização dos exercícios, controlando inclusive a intensidade dos mesmos. Em cada equipamento, a amplitude e a velocidade dos movimentos também são eletronicamente mensurados por “leds” localizados no monitor, possibilitando que o próprio aluno avalie o desempenho do seu treinamento, promovendo o seu auto-atendimento, dispensando a assistência do professor (ADDAD NETO, 2001, p. 42).

Grande parte do trabalho que exigia conhecimentos profissionais do professor agora é realizado pela máquina, o que desloca boa parte de sua participação na produção do serviço vendido pela academia da esfera dos conhecimentos profissionais para a esfera do atendimento.

Sendo assim, a capacidade de comunicação do professor passa a ter uma importância significativa para a academia, ou seja, esse fato juntamente com o fato de o conhecimento científico ser ainda necessário, faz estabelecer uma maior interação entre os conhecimentos científicos da educação física e as competências ligadas ao relacionamento, atendimento, motivação, comunicação e outras.

Esse mesmo processo de automação flexível é chamado de autonomação por Ohno (1997), quando explica o caso da fábrica da Toyota:

Na Toyota uma máquina automatizada com um toque humano é aquela que está acoplada a um dispositivo de parada automática. Em todas as fábricas da Toyota, a maioria das máquinas, novas ou velhas, está equiparada com esses dispositivos [...] para impedir produtos defeituosos. Dessa forma, inteligência humana ou um toque humano é dado às máquinas. A autonomação também muda o significado de gestão. Não será necessário um operador enquanto a máquina estiver funcionando normalmente. Apenas quando a máquina pára devido a uma situação anormal é que ela recebe atenção humana. Como resultado, um trabalhador pode atender diversas máquinas, tornando possível reduzir o número de operadores e aumentar a eficiência da produção (OHNO, 1997, p. 28).

Em alguns casos, a autonomação ou automação flexível dentro da academia X é evidente, como, por exemplo, na organização do trabalho na sala de musculação. Vários aparelhos da sala de musculação são “inteligentes”. No sistema de tecnologia da informação, existente nessa sala, cada aluno possui uma chave com um “chip” que armazena informações a respeito do programa de treinamento do aluno, inclusive relacionando o número de séries, a carga, a velocidade de execução, a amplitude de movimento, etc.

Assim, o professor tem condições de atender a mais alunos ao mesmo tempo, ou melhor, de atender a mais máquinas ao mesmo tempo, já que o atendimento na sala de musculação não é separado por alunos e sim por máquinas. Cada professor é responsável por um corredor com máquinas dos dois lados. Da mesma forma que, segundo Ohno (1997), acontece na fábrica da Toyota, na academia X é apenas quando alguma situação anormal acontece com a máquina, ou quando solicitado, que o aluno recebe atenção do professor na execução da atividade.

Isso não quer dizer que o professor não dê atenção aos alunos, mas sim que os alunos geralmente não precisam do professor para acompanhar as atividades tão diretamente graças à automação da sala de musculação. O professor ainda continua dando atenção aos alunos e é exigido que ele faça isso, mas não fundamentalmente pela necessidade de ensinar o aluno a executar a atividade no aparelho e sim pela necessidade de prestar um atendimento às dúvidas, curiosidades e interesses dos alunos a respeito da atividade física, além de manter uma relação extrovertida, de interação social, animação e amizade.

Sobre algumas das características do trabalho do professor entre as décadas de 1960 e de 1990, Novaes descreve:

O professor deveria ensinar como se verifica a F.C., pois durante a aula de aeróbica, pelo menos de cinco em cinco minutos, todos aferiam suas freqüências cardíacas em exercício (F.C.E.), e verificariam se estão dentro da intensidade de esforço (zona alvo) da faixa correspondente à sua idade (NOVAES, 1990, p. 63).

A tendência é o professor não realizar mais esse tipo de trabalho, e nem mesmo vários outros realizados em épocas anteriores e ainda realizados hoje em academias menos desenvolvidas em razão da existência de equipamentos que, por exemplo, realizam o controle da freqüência cardíaca (F.C.) do aluno automaticamente e de outros equipamentos que substituem parte do trabalho do professor.

Não pretendo trazer uma valorização nostálgica do antigo trabalho do professor de Educação Física no ramo da ginástica e da musculação. Nem mesmo negar os benefícios proporcionados pelo aumentoda tecnologia ao trabalho do professor. É minha pretensão mostrar que a crescente introdução de equipamentos com tecnologia cada vez mais avançada, aliada à grande transformação ocorrida na organização do trabalho ocasionada pelas estratégias do capital para gerenciamento de sua crise de superprodução, está provocando uma grande mudança na caracterização das academias de ginástica e do trabalho de seus professores.

Na forma atual das relações de produção, o professor não tem condições de usufruir das inovações tecnológicas implementadas na academia como poderia se o mundo do trabalho estivesse assentado em outras bases de organização. No contexto atual, o professor não tem uma diminuição de sua exploração com o aumento da tecnologia, mas pelo contrário, no capitalismo,

à medida que evoluem a maquinaria e a divisão do trabalho, evolui também a quantidade de trabalho, seja pelo aumento das horas de trabalho, seja pelo aumento do trabalho exigido num determinado lapso de tempo, seja pela aceleração dos movimentos das máquinas etc. (MARX E ENGELS, 2001, p. 39).

Uma característica da organização do trabalho pedagógico da academia X é a “liberdade” que os professores possuem de decidir sobre qual método de musculação que irão utilizar com seus alunos e também para a elaboração de todo o programa de treinamento de cada aluno, e muitas vezes os professores utilizam métodos diferentes. Sobre isso afirma o professor E: “todo mundo tem muita liberdade para desempenhar o trabalho”.

Embora nesse processo haja aspectos positivos para os professores, é importante ressaltar que a maior “liberdade” para execução e planejamento das aulas é limitada pela necessidade e conseqüente cobrança da academia ao professor pela produtividade do seu trabalho. Assim sendo, o professor tem de fato “liberdade” para desempenhar o trabalho, mas é uma “liberdade” apenas aparente porque a aula deve ser dada de uma maneira que garanta a produtividade exigida pela academia. A esse respeito, Sennett (2003, p. 69), afirma que com a acumulação flexível “ na revolta contra a rotina, a aparência de nova liberdade é enganosa”. Segundo ele, os indivíduos não foram libertados das imposições das formas de organização do passado, mas sim, sujeitos a novos tipos de controle.

A presença dessa liberdade aparente na academia X se justifica pela necessidade de flexibilidade do professor para atender a diferentes tipos e características de alunos, que possuem desejos e necessidades também diferentes. Se o professor precisa ser flexível, a academia deve dar condições para isso não mantendo padronizações de trabalho e tarefas para serem cumpridas rigorosamente como foram descritas. Assim, essa liberdade não passa de “liberdade” para ser flexível.

Na fala do professor B, fica clara a relação dessa “liberdade” com a necessidade de flexibilidade do professor para atender a situações diversas e a alunos diversos:

Eu monto as minhas aulas com uma seqüência pedagógica que vai do mais simples para o mais complexo, dependendo da turma. E sempre acontece daqueles alunos que chegam, então você tem que estar atento para mudar essa seqüência de acordo com aqueles alunos que chegaram, que são novatos e que talvez não vão dar conta de acompanhar. Então, a montagem da aula ela tem uma linha estruturada, mas ela dá abertura para que você vá encaixando essas ocasiões de improviso. O professor de ginástica, se não for uma aula de local ele nunca vai chegar na sala com uma aula totalmente pronta. Porque ali ele pode receber vários alunos diferentes.

Ao se compreender a organização do trabalho dentro da academia X, percebe-se que a concepção do trabalho continua alheia ao professor porque ele é obrigado a planejar suas aulas de forma que garanta a produtividade exigida pela academia. A concepção do trabalho é limitada pelos princípios da acumulação flexível adotados pela academia. Ou seja, os objetivos principais das aulas já estão determinados pela forma como a academia se organiza para a produção, sendo eles principalmente, atender a diversificação e aos desejos dos alunos, atualizar as aulas de acordo com os modismos do mercado, ter produtividade, agradar sempre o aluno, entre outros. A divisão do trabalho encontrada entre os professores e avaliadores também impede que a concepção do trabalho seja oriunda do próprio professor.

Com a acumulação flexível, se intensifica um novo aspecto da alienação que é a apropriação da subjetividade do trabalhador pela empresa. O trabalhador tem a sua subjetividade presa ao projeto da empresa ficando envolvido com a missão desta e com pouco ou nenhum envolvimento com a sua classe, o que demonstra que a totalidade que envolve o mundo do trabalho não é compreendida por esse trabalhador.

Antunes (2001) chama essas novas formas de alienação presentes na acumulação flexível de “formas contemporâneas de estranhamento”. Segundo ele:

Os benefícios aparentemente obtidos pelos trabalhadores no processo de trabalho são largamente compensados pelo capital, uma vez que a necessidade de pensar, agir e propor dos trabalhadores deve levar sempre em conta prioritariamente os objetivos intrínsecos da empresa, que aparecem muitas vezes mascarados pela necessidade de atender aos desejos do mercado consumidor. Mas sendo o consumo parte estruturante do sistema produtivo do capital, é evidente que defender o consumidor e sua satisfação é condição necessária para preservar a própria empresa. Mais complexificada, a aparência de maior liberdade no espaço produtivo tem como contrapartida o fato de que as personificações do trabalho devem se converter ainda mais em personificações do capital. Se assim não o fizerem e não demonstrarem essas “aptidões” (“vontade”, “disposição” e “desejo”), trabalhadores serão substituídos por outros que demonstrem “perfil” e “atributos” para aceitar esses “novos desafios” (ANTUNES, 2001, p. 130).

Assim sendo, aqueles aspectos da organização do trabalho que se observados superficialmente indicariam positividade, guardam na essência a sua dimensão alienante. Além disso, “o trabalho alienado característico do capitalismo, que se baseia na propriedade privada, não constitui somente um elemento da alienação do homem, mas também de alienação das coisas mesmas” (RESENDE, 1992, p. 109).

Dessa forma, a introdução da tecnologia apesar de aparentemente ser algo bastante positivo, e o é se considerados alguns momentos isolados do trabalho, representa uma intensificação da alienação do trabalhador. Sobre isso é interessante o exemplo de Kosik:

O indivíduo maneja o telefone, o automóvel, o interruptor elétrico, como uma coisa banal e indiscutível. Somente um defeito, uma interrupção, lhe revela que ele existe em um mundo de aparelhos que funcionam e que formam um sistema internamente interligado, cujas partes dependem uma das outras. O defeito demonstra que o parelho não é uma coisa isolada, é uma pluralidade; que o receptor é destituído de valor sem o fone, e assim o fone sem os fios, os fi os sem a corrente elétrica, a corrente elétrica sem a usina central elétrica (KOSIK, 1995, p. 75).

A alienação não está presente somente nas academias. Outros trabalhadores também sofrem as mesmas conseqüências e mais, como ao generalizar a produção de mercadorias esses processos também se generalizam pode-se afirmar que de fato ninguém se salva da alienação.

Em decorrência disto, alguns impulsos levam o homem a buscar a sua realização enquanto homem em outros espaços fora do trabalho. “Assim, chega-se a conclusão de que o homem se sente livremente ativo nas suas funções animais – comer, beber e procriar [...] enquanto nas funções humanas se vê resumido a animal” (MARX, 2004, p. 114).

Alguns desses impulsos estão relacionados à parte daquilo que levam os alunos a se matricularem em academias. E é exatamente aí que as academias focalizam suas estratégias de sedução e conquistas de novos clientes.

Assim, a alienação e o fetiche acabam determinando a organização interna da academia porque na acumulação flexível a academia produz de acordo com os desejos e necessidades dos clientes e grande parte desses desejos e necessidades são oriundos dos processos de alienação e fetiche os quais esses clientes sofrem.

 

New technologies and new ways of organizing teacher work at sports centers

ABSTRACT

Based on a case study undertaken in a large gym in the city of Goiânia, Brazil, I present this paper that aims at understanding how technological changes in gyms have influenced the organization of work in such spaces. This research was developed in the first quarter of 2004. Semi-structured interviews with teachers from the investigated gym were done for data collection. The chosen gym, herein renamed as Academia X, was the one that had the most advanced technology available for this business sector in the city of Goiânia. The achieved results may point to future trends for the other gyms. This is only possible because lesser developed gyms tend to match their more developed counterparts.

KEYWORDS: gym – technology – work.

 

Nuevas tecnologías y nuevas formas de organización del trabajo del profesor en academias de gimnasia

RESUMEN

A partir de un estudio de caso realizado en una gran academia de la ciudad de Goiânia, traigo este resumen con el objetivo de compreender cómo las transformaciones tecnológicas en las academias de gimnasia han influenciado la organización del trabajo en este espacio. La investigación fue desarrollada en el primer semestre de 2004. Para adquirir datos fueron realizadas entrevistas semi-estructuradas con profesores de la academia investigada. La academia elegida, cuyo nombre ficticio será Academia X, fue la que representó lo que hay de más avanzado en este ramo de actividad en Goiânia. De esta forma, podrán ser indicadas algunas tendencias para las demás academias de acuerdo con los resultados obtenidos. Ello sólo es posible porque la tendencia de las academias menos desarrolladas es de seguir las más desarrolladas.

PALABRAS-CLAVE: academia – tecnología – trabajo.

NOTAS

* Professor do curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Estadual de Goiás – Unidade Universitária de Goiânia – ESEFFEGO.

REFERÊNCIAS

ADDAD NETO, S. J. Reflexão da organização do trabalho pedagógico a partir das concepções empresariais das academias de Goiânia. Goiânia: UFG, 2001. (Monografi a, especialização).

ANTUNES, A. C. Academias de ginástica e musculação: preparação de recursos humanos. 2000. 147 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Motricidade) – Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro-SP, 2000.

ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2001.

____. Trabalho e superfluidade. In: LOMBARDI, J. C.; SAVIANI, D.; SANFELICE, J. L. (Orgs.). Capitalismo, trabalho e educação. Campi-nas-SP: Autores Associados, 2002.

COELHO FILHO, C. A. de A. O discurso do profissional de ginástica em grandes academias no Rio de Janeiro. 1998. 166 f. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro, 1998.

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KOSIK, K. Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

KUENZER, A. Exclusão includente e inclusão excludente: a nova forma de dualidade estrutural que objetiva as novas relações entre educação e trabalho. In: SAVIANI, D. et al. (Orgs.). Capitalismo, trabalho e educação. Campinas, SP: Autores Associados, 2002.

MACHADO, L. R. de S. Mudanças tecnológicas e a educação da classe trabalhadora. In: Coletânea CBE. Trabalho e educação. Campinas, SP: Papirus, 1994.

MARX, K. Manuscritos econômicos e filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2004.

MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Anita Garibaldi, 2001.

NOVAES, J. da S. Ginástica de academia no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UFRJ, 1990.

OHNO, T. O sistema Toyota de produção: além da produção em larga escala. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

RESENDE, A. C. A. Fetichismo e subjetividade.1992. 210 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 1992.

SENNETT, R. A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2003.

Recebido: 30 de março de 2007
Aprovado: 4 de junho de 2007

Endereço para correspondência:
cremerroberto@hotmail.com

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